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O Casarão dos Müller

Na colina, subindo a estradinha de chão, empoeirada, na beira da estrada, vislumbramos o magnífico grande Casarão dos Müller, construído no ano de 1881, conforme uma fachada encontrada nos fundos da casa com a inscrição do ano da finalização da obra.
141 anos, mais de um século de histórias. Uma só casa, muitas memórias. A sua estruturação se deve a pedras e ripas de palmito, com reboco de barro e cal. O assoalho, as divisórias e o forro do telhado todo composto por tábuas largas em madeiramento de lei. Possivelmente edificada por escravizados.
A família adquiriu esta propriedade de Isidoro Espíndola, este precisou vender por não conseguir terminar a construção devido a dificuldades financeiras. Ao longo do tempo a casa serviu à família de Guilherme André Müller e Alexandrina Baltazar Müller. A edificação sobreviveu a diversas intempéries, o local serviu para plantio de cana-de-açúcar, produtos de subsistência, criação de gado, plantação de café e também possuía um engenho no local.

Casa antiga, mais precisamente do Século XIX, traz vestígios de períodos distintos e diferenças sobre morar e trabalhar. Algumas práticas permanecem, outras vão surgindo. A inexistência de energia elétrica, era substituída por lamparinas de querosene para clarear a varanda e cômodos da casa. Não havia água encanada e gás. Para conservar a água bem fresquinha usavam os tarros de barro que eram buscados no poço um pouco distante da casa. Sem contar que o sabão era feito em casa com gordura ou cinza. Lavavam roupas na sanga, água muito distante, fogão de lenha com chapa de 05 furos, tudo a pixirica (querosene), e usavam velas que eles mesmo faziam. Para tomar banho era num bacião. Colchões de palha. A família produzia quase tudo que consumia.
Observando os móveis que ainda restam no casarão, percebe-se: armários antigos que realçam a beleza da arquitetura dos oficineiros, os armários embutidos na parede, o cofre de madeira, as camas e guarda-roupas, tudo feito pela família. Nessa propriedade tinha também uma oficina de carpintaria, onde se construíam carros de bois e carretões. É possível encontrar também instrumentos de madeira que eram utilizados para pesar os produtos e tinham a seguinte medida: “Meio alqueire, só pesava e o colocava num saco na época; meio alqueire de farinha, um alqueire de milho, era assim”. Do balcão existente no local, as prateleiras foram retiradas para colocar milho, igualmente medido por alqueire.
Na casa, de estrutura alta, ainda se avista o local da linha para se colocar o lápis que anotava tudo bem em cima, a marca permanece. Quando precisavam puxavam o cordão e o lápis vinha para marcar. A peneira, também antiga, era usada para peneirar feijão. No local ainda foi possível encontrar as torradeiras de café. E as paredes, embora descascadas pelo tempo, ainda mantêm a estrutura original: pau a pique.
Uma das netas de Guilherme e Alexandrina, Judith Müller (1925 – falecida em 2018) casada com Odilo Ramos Müller, continuou as atividades de seu pai e manteve o ponto comercial no local, sendo esse um ponto de passagem de tropeiros.

A partir disso o casarão passou a ter outras finalidades que não só a de propriedade. Servia como um forte armazém de secos e molhados e loja de tecidos, onde ali se realizava a compra, venda e troca produtos, sendo referência para as pessoas de Morro do Forno e Roça da Estância. A grande parte era vendida aos tropeiros e cargueiros que vinham da região serrana e também trocavam, nesta casa, seu charque e farinha de trigo por produtos como: açúcar, feijão, arroz, milho e rapadura.
Esse legado deixado pela família é hoje patrimônio histórico-cultural, sendo essa a principal rota nos limites dos municípios de Mampituba e Torres, localizado no “Geoparque Caminho dos Cânions do Sul”. De divisas entre os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Por que preservar sua estrutura?
A preservação de estruturas como o casarão dos Müller, localizado na Vila Lothhammer no município de Torres, RS, próximo à divisa da comunidade de Cambraia, no município de Mampituba/RS, é essencial para a preservação da história local, bem como a disseminação do conhecimento. Este Tombamento está sendo mobilizado por familiares, lideranças, Câmara de Vereadores, Administração Municipal e CEHTR-Centro de Estudos Históricos de Torres e Região.

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