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Onde a Vila começa

Relata-se na história torrense que nossa gente era muito religiosa. E seu primeiro templo espiritual, a Capela de São Domingos (das Torres), é uma obra de imenso valor artístico e cultural, na simplicidade do seu estilo colonial barroco, que agrega magia e encantamento arquitetônicos. É o segundo patrimônio histórico material mais antigo ainda existente na nossa cidade. Foi tombada em 1983 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do RGS. No entorno da Capela há relatos das histórias do povo, com seus costumes, tristezas e alegrias que complementam a simplicidade de tudo ali existente.
Aqui serão relatadas algumas particularidades: capela inaugurada em 24 de outubro de 1824 (conforme inscrição existente na própria matriz). A primeira celebração religiosa em Torres, foi no dia de Natal, consta que na região viviam cerca de 300 almas, como registrado em carta assinada pelo Visconde de São Leopoldo. A construção da Capela foi determinante para a formação do núcleo urbano, pois a partir dela foi possível agregar os moradores rurais ali residentes estabelecendo um centro comunitário de referência.
Quem autorizou a construção da Capela, em 1815, foi o Bispo Dom José Caetano Coutinho, do Rio de Janeiro, que em uma de suas viagens pastorais pela região, atendeu a demanda do Comandante da Guarda Militar, o então Sargento Manoel Ferreira Porto, que se fez de porta-voz dos moradores reivindicando uma Capela para evitar a dispersão dos habitantes locais. Assim, o funcionário do Posto Fiscal, Domingos Antônio da Costa Guimarães, foi designado para presidir a Comissão da Capela. Alguns presumem que foi ele quem escolheu o Santo Protetor (São Domingos). A tal Comissão identificou o local para o templo, a oeste do Morro do Farol, ficando ao lado da casa do Sargento Manoel Ferreira Porto. Conforme pesquisas existentes, Ferreira Porto hospedou o Bispo e outros ilustres que por aqui transitaram, pois existia uma estradinha única (atual Júlio de Castilhos) por onde passavam as mercadorias sujeitas a registro e tributo.

Em 1826, foi elevada à Capela Curada trazendo muito progresso à vila, incluindo doações de terras para o povo se arranchar. Tem-se notícias que da mata atrás da Praia da Cal e das proximidades da lagoa no centro da vila, foram extraídos barrotes para a construção da torre da matriz. Quem relata tal fato foi o botânico francês Saint-Hilaire que em viagem ao sul do Brasil, por volta de 1820, passando pela vila se deparou com o madeirame já cortado para a construção da Igreja.
Sobre o padroeiro de Torres, São Domingos: nasceu em Burgos, na Espanha, em 1170, de família nobre e rica. Foi ordenado aos 30 anos e logo reconhecido e nomeado Cônego da Catedral. Desde cedo fazia caridade e sua luta era a criação da Ordem Religiosa Os Dominicanos, só aprovada em 1216, e da Ordem Feminina As Irmãs Dominicanas, que também fizeram história na nossa cidade. Na Itália, encontrou-se com São Francisco de Assis. Faleceu em Bolonha em 1221. Quando sua mãe, grávida, aguardava o nascimento desse filho, teve um sonho: viu um cão carregando na boca um facho aceso que iluminava o mundo. Por isso, na iconografia é representado tendo ao seu lado um cão carregando um facho, mas também, em outra representação, aparece ajoelhado diante de Nossa Senhora com o Infante nos braços, recebendo dela um rosário, devoção que ele propagou.
A Igreja Matriz São Domingos e/ou São Domingos das Torres, foi inaugurada em 1824, ampliada em 1857/58, passando por obras de manutenção. Em 1898 foi construído o campanário, sendo que no projeto inicial constavam duas torres, porém só foi erguida a torre da esquerda, por ordem do Padre Giusepe Lomonaco. Em 1928 rebaixaram o forro e fizeram escoramento de algumas paredes. Em 1936 foram feitos alguns reparos em virtude de um raio ter atingido o topo da torre. Em 2011 foi iniciada uma restauração mais ampla ao custo de um milhão e trezentos mil reais (conforme explicitado nos tapumes que a isolavam do público) obtidos através do Ministério da Cultura e contribuintes através de Leis de Renúncia Fiscal Estadual e Nacional. Concluída restauração em 2016, no início de 2017 com muitas mudanças internas em relação com que conhecíamos, foi celebrada a sua reabertura para a comunidade.

Fontes:
Sito da Prefeitura Municipal de Torres, em 15 de julho de 2022.
Raízes de Torres, 1996, Torres Tem Histórias, Ruy Ruben Ruschel / Organizado por Nilza Huyer Ely.

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