O Patrimônio Cultural é compreendido como o conjunto de bens culturais materiais, imateriais e o meio ambiente natural que tenha relevância social e afetiva para uma coletividade. Os aspectos simbólicos e materiais resultantes das relações sociais são considerados bens do Patrimônio Cultural. Ao longo do processo histórico, as sociedades foram atribuindo uma série de valores e representações simbólicas à produção material, até chegar ao que conhecemos como patrimônio. De origem latina, patrimonium, para os romanos significava o que pertencia ao pater famílias (pai de família). Em âmbito global se discute políticas públicas de preservação do Patrimônio Cultural, valorizando os traços culturais dos centros urbanos e rurais. O reconhecimento, a valorização e a preservação dos patrimônios material e imaterial fundamentam-se num processo educacional que privilegie as comunidades e sua diversidade cultural. As possibilidades dialógicas entre Educação Popular e Educação Patrimonial são amplas e diversas, compreendidas como um processo.

A Educação Patrimonial pode ser entendida como um processo permanente e sistemático de trabalho educacional centrado no patrimônio cultural como fonte primária de conhecimento. Trata-se de um processo de ensino-aprendizagem que reconhece e valoriza os bens culturais de uma determinada comunidade. Nossa sociedade, considerada moderna, está destruindo tudo aquilo que representa o nosso passado, em nome do progresso. As novas construções e tecnologias estão tomando espaço daquelas antigas construções e práticas da cultura popular, consideradas velhas e ultrapassadas. Nesse sentido, grande parte do patrimônio cultural, construído por diversos povos ao longo dos anos, está desaparecendo.
Diante dessa situação, a Educação Patrimonial pode desempenhar um importante papel e um grande avanço na valorização e preservação do patrimônio cultural. Esses artefatos que resistiram no tempo, são fontes de informação, parte das nossas histórias espalhadas pelas cidades, são vestígios das formas do saber e dos gestos e técnicas, costumes que precisam ser preservados.
Fortalecer o sentimento de identidade é crucial para que o patrimônio cultura seja preservado. Para isso, é necessário que as pessoas se sintam parte da história e percebam a sua contribuição. Temos que valorizar toda forma de cultura que representa o povo, não simplesmente uma parte do patrimônio que representa apenas uma minoria da população.
O panorama da cidade de Torres é um testemunho da história geológica da cisão continental. A conformação do ambiente propiciou o povoamento primitivo do litoral norte por grupos humanos distintos, evidenciados pelos diferentes vestígios arqueológicos. Inúmeros são os sítios arqueológicos pré-coloniais e históricos na região, como sambaquis, aldeias guaranis, paradeiros caçadores e coletores, e petróglifos na zona rural. A variabilidade de sítios arqueológicos comprova o mosaico cultural que compunha o litoral norte. Esta materialidade resulta de um longo processo de povoamento da região, proporcionado pelas condições geográficas favoráveis.
O núcleo histórico está localizado na encosta da Torre Norte (Morro do Farol) e compreende a Rua de Cima (atual José A. Picoral) e a Rua de Baixo (atual Júlio de Castilhos). Perfilados no sentido Norte/Sul, nestas duas ruas encontravam-se os sobrados e casarios coloniais. Nesta área foi construída a Freguesia São Domingos das Torres, em 1824, e a Casa nº 1 que pertencia ao Alferes Manoel Ferreira Porto, para citar apenas as edificações mais antigas. Na porção superior, em meia encosta, foram fixadas as fortificações de Torres, iniciando sua implantação em 1777. Provavelmente, a Guarda e Registro estava fixada na porção inferior que afunilava no caminho que cortava a vila entre a lagoa (Violão) e a falésia norte.
Na parte meridional, na Praia da Cal, existiam fornos de processamento de matéria-prima para a construção civil, primeiramente uma olaria e logo após as caieiras. Associado a este sítio, uma área de extração de argila para a olaria. Entre a Praia da Cal e a Guarita, na Torre do Meio (Morro das Furnas) na face leste da elevação, há um sítio muito interessante associado ao Datum Altimétrico ou Marégrafo de Torres. E por fim, na Praia da Guarita encontra-se os vestígios da área de extração das rochas e do quebra-mar pertencente ao Porto de Torres, projetado na Primeira República, durante o governo de Deodoro da Fonseca, em 1890. Em relação ao patrimônio edificado, existem outras áreas de interesse histórico: o Farol de Torres, o Cine Ronda, o Salva-Vidas no calçadão da Praia Grande, a Ponte Pênsil, os Molhes do Mampituba, o Abrigo da Praia Grande, os prédios antigos de veranistas e dos primeiros hotéis, diversas casas e chalés da Prainha, Praia Grande e Praia da Cal, que remontam à história do turismo de veraneio em Torres.
Um longo caminho a ser percorrido na preservação dos bens históricos e culturais em que os processos e metodologias pedagógicas tornam-se fundamentais para pavimentar uma sociedade mais democrática e justa, um berço para a diversidade étnica e cultural.
Referência: GEDEON, Leonardo. O Passado em Ruínas: turismo e patrimônio arqueológico em Torres. Torres: Editora TC, 2014.
Pesquisador, Escritor, Guia de Turismo e Educador Rastafari.
Profissional com experiência nas áreas de arqueologia, arquivologia, educação patrimonial e docência em História, Filosofia e Sociologia.


