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“Pedras que querem voar”

Reinventar as Torres

Era uma manhã de sábado ensolarada durante o período de reclusão imposta pela pandemia. O escritor indígena Ailton Krenak concedeu uma entrevista à historiadora e antropóloga Lilian Schawarcz . Comentando sobre como estava observando a vida, na varanda de casa, às margens do Rio Doce/MG, antes de iniciar o diálogo aproveitou brevemente o momento para compartilhar um sentimento: a narrativa sobre “pedras que querem voar!”. Atribuindo significados ancestrais aos elementos da Natureza, explicava que seu povo – os Krenak – nomeiam uma das montanhas da aldeia como Tatukrak. Nome que expressam porque suas pontas – como lanças – apontam para o céu. Junto à referência dessa memória, trazia na lembrança de sua fala outra formação rochosa que também assinala para cima: “Torres”, no litoral do Rio Grande do Sul. Com o significado da montanha Tatukrak – e por toda a densidade rochosa que ela representa –, Ailton Krenak tecia analogia “às Torres”* por também serem “pedras que querem voar!”. Talvez, afetado por algum momento da vida que tenha passado por aqui. Provavelmente, inspirado com a formação da “Pedra da Guarita” e que também aponta para o céu. Eis que, alguém de nós, um dia precisa lhe perguntar.
Naquela manhã de sábado, uma das principais lideranças indígenas brasileiras estendia profundo recado de alerta para o “povo das Torres”: uma mensagem sobre a perda da capacidade de nos afetarmos com o mundo – suas montanhas, rios, árvores e outros tantos seres incríveis que há muito tempo deixamos de dialogar. Uma completa “desalfabetização” e que, segundo suas significativas reflexões, foi-nos privada pela sociedade capitalista, militarizada e ecologicamente problemática. Um progresso cada vez mais cego e abstrato, que nos envolve, cada vez mais. Saberes que os povos indígenas resistem para não perder. Ensinamentos por eles transmitidos sobre pluriversos mundos que devem ser permanentemente reimaginados. Pois, como sugere Krenak, não existe um único momento ou um único dia em que o mundo foi criado e/ou apareceu: o mundo é reinventado todos os dias, a toda hora e a cada instante! Enquanto seguirmos perdendo a capacidade de nos afetarmos, provavelmente continuaremos sem chances de compreender melhor o que está acontecendo ao nosso redor. Portanto, não somente precisamos reencontrar outros sentidos às Torres – essas “pedras que querem voar!”; como realmente precisamos levar a sério os ensinamentos dos povos originários, como o pensamento ameríndio de Ailton Krenak (2020).
Desde que o sociólogo peruano Aníbal Quijano (2019) estabeleceu o conceito da “colonialidade do poder”, na década de 1980, profundas transformações têm conferido crescente atenção por demandas que envolvem direitos humanos, justiça socioambiental e reparação histórica na América Latina. Efeitos surgidos com o processo colonizador sobre uma “América Profunda”, como bem proferiu o argentino Rodolfo Kusch (2007). Que não são ensinados nas escolas, tampouco é noticiada ou está presente nos discursos de poder. Enfrentamentos inevitáveis e que permanecem avançando contra corpos, povos e territórios. Debates que seguem emergindo com urgência no campo das ciências sociais e das filosofias do conhecimento. Perspectivas decoloniais que nos incidem, por exemplo, repensar a antropologia do patrimônio: a emergência da restituição pública de lugares e objetos; ao relativo sentido das coleções, museus e monumentos. Horizontes “culturais” que evidenciam o ideal capitalista neoliberal. Não deixemo-nos enganar, infelizmente. Evidências implícitas sobre dores, expropriações e violações cometidas pelo empreendimento colonial. Relações de poder e estruturas de dominação forjadas por conflitos, tensões e jogos de força. Lugares, na História, na Memória e no Patrimônio, onde o silêncio é elemento hegemônico como espaço de decisão.

Imagem área dos “Rochedos de Torres” feita pelo naturalista gaúcho Padre Balduíno Rambo S.J. (1942)

Em 2022, celebra-se o bicentenário da Independência brasileira. Mas, afinal: Como está a sociedade, a cultura e a biodiversidade? Como estão as populações tradicionais, os patrimônios e os museus? Como vai o Estado, nossa democracia e vidas? Tramas comuns e que envolvem diretamente nossas trajetórias. Questões de confluência, onde à 33ª Reunião Brasileira de Antropologia, com o tema: Defender direitos e fazer Antropologia em tempos extremos, têm-nos instigado repensar a consciência histórica que atravessamos enquanto nação. Será que estamos tendo responsabilidade, compromisso e engajamento ético com a vida neste momento crítico? Diálogos que perpassam vozes com o pensamento antropológico contemporâneo e atingem um amplo consenso: que também é preciso “reinventar o Brasil” (ABA, 2022). Urgentemente. Reinventar, enfrentando e desconstituindo os domínios da violência, da guerra, do genocídio, da tortura, do estupro, da escravidão, do racismo étnico e ambiental que nos assolam. Problemas profundos que estão institucionalmente arraigados com as estruturas de 1822, também.
E hoje, localmente: Quais são esses “patrimônios” – materiais e imateriais – que (de)marcam histórias e memórias nas paisagens das Torres? Será que entre suas belezas naturais há lugar para resistências de vidas indígenas, negras e bicuíras? Que tipos de “patrimônios” – coleções, sítios arqueológicos, museus, monumentos e centro histórico – a herança colonial legou? Será que as mesmas vozes que denunciam, encontram espaço para diálogo, reconhecimento, reparação e justiça? Qual o papel do patrimônio junto aos desafios comuns contemporâneos de direito à cidade, à cidadania e à democracia? Situações de limite; evidências de dinâmicas complexas para serem resolvidas. Mas que, quando observadas – porque precisam ser atendidas –, explicitam o quanto a política do esquecimento serve de instrumento a interesses únicos e que negligenciam o direito coletivo à memória. Problematizações, tampouco locais. Como são amplas, chamam a atenção da Unesco (2016). Do mesmo modo que, nacionalmente, passaram a estar presentes junto às principais metas e desafios na promoção de princípios fundamentais nos processos de patrimonialização. Portanto, como forma indissociável para uma reconstrução efetiva de uma Política Nacional ao Patrimônio Cultural (IPHAN, 2018).
Como território entrelaçado pela herança colonial explicitamente presente na história oficial do Baluarte Ipiranga (1822) é preciso que voltemos a nos afetar com as “pedras que querem voar”, isto é: reinventar às Torres. Encontrar outros sentidos – juntos – neste momento crítico que requer compreensão. Especialmente, nossas profundas raízes históricas e sociais. Reconhecer a diversidade étnica e ambiental da questão, suas realidades e desafios. Mas, também, não deixar de sonhar com a reimaginação.
Tio Bento Barcelos da Silva (2017) estava ciente disso. Seus escritos ensinam a lição. Lembremo-nos sempre dele, com carinho. Quanta falta ele faz, nessa discussão.

* Entrevista concedida no dia 27 de mundo de 2020, no canal @liliaschwarcz

** É preciso destacar que “às Torres” serão apresentadas com crase em nosso texto.
Uma vez que tal entendimento parte do reconhecimento da Natureza como sujeito de direitos. Deste modo, referenciamos-nos ao ambiente natural das Torres, portanto, como substantivo feminino onde permanece o conjunto da paisagem, flora, fauna e etnias originárias do lugar. Inspirado em imperativos éticos dos “Direitos da Natureza” (GUDYNAS, 2019), serve também para diferenciá-la diretamente do termo “Torres”, que historicamente foi forjado junto com a toponímia de controle do sítio, no século XVIII. Nesse entendimento, como essência ou propriedade de algo.

eferências:

KRENAK, Aílton. Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia de Letras, 2020.
KUSCH, Rodolfo. El Pensamiento Indígena y Popular en América. In: Obras Completas. Fundación Ross, Tomo II, 2007.
QUIJANO, Aníbal. Ensayos en torno a la colonialidad del poder. Ediciones del Signo, 2019.
RAMBO, Balduíno. A Fisionomia do Rio Grande do Sul. Ensaio de monografia natural. Of. Graf. Imprensa Oficial, 1942
SILVA, Bento Barcelos da. Vale do Mampituba: história, realidade e imaginação. Editora RJR, 2017.

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