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Construindo conhecimento sobre a História e o Patrimônio Cultural: A Educação Patrimonial

Artigo de Mariseti Cristina Soares Lunckes e Jorge Luis de Medeiros Bezerra

O presente texto busca apresentar de forma sucinta os fundamentos do conhecimento histórico e do fazer pedagógico em sala de aula e na comunidade, sendo necessário pensar tais fundamentos a partir de uma proposta interdisciplinar. Ou seja, entre diferentes campos da filosofia, antropologia, história, psicologia e pedagogia que nos respondam as seguintes questões: de onde viemos? O que somos e para onde vamos? Para Rüsen (2010), tempo e espaço são fundamentais para compreender os fenômenos humanos e a constituição de sentidos da experiência no presente, passado e futuro. Para dominarmos as razões do conhecimento histórico-científico precisamos entender a vida prática e o cotidiano dos indivíduos.
Dentro deste contexto, observamos importantes e aceleradas mudanças mundiais em relação ao pensamento crítico, habilidades de comunicação, colaboração, criatividade e memória histórica. Mudanças que exigem adaptação e a necessidade de aprender sempre. Em relação ao aprender e ao ensinar Jörn Rüsen (2011) destaca que a História enquanto disciplina não pode ficar restrita à transposição didática do que é produzido nas academias para o ambiente escolar, não podendo se limitar apenas à característica puramente hermenêutica. Rüsen (2011) menciona que a didática é a episteme da História enquanto ciência, pois ela nascera da necessidade que o ser humano tem pela busca do conhecimento e pela necessidade de transmitir esse conhecimento para futuras gerações, sendo assim, questões relacionadas ao ensino e aprendizagem do conhecimento histórico são tidas como prioridade.
Para Rüsen a cultura histórica é o campo onde a ciência Histórica se manifesta, na medida em que esse campo é composto por um conjunto de elementos por onde o conhecimento histórico é gerado não sendo necessariamente a escola seu maior produtor. Cultura histórica pode ser entendida como toda produção humana que direciona para a vida prática.
Rüsen propõe um Ensino de História que tem por finalidade o desenvolvimento da consciência histórica. O ensino de história tem a função de despertar a consciência histórica e uma vez despertada o educando poderá se orientar melhor dentro de seu contexto social, político, enfim, ele estará mais apto para viver em sociedade e entender as diferenças temporais e espaciais presentes em sua comunidade. Rüsen chama de “operações mentais”, compreender a evolução temporal de si, partindo do seu presente e de sua cultura ele possa entender o passado e para com isso projetar um futuro de forma consciente pelo qual possa se orientar de forma prática atendendo as demandas das mudanças atuais.
A autora Helena Pinto em seu artigo Interpretação de fontes patrimoniais em educação Histórica de 2012, norteado pelo pensamento de RÜSEN, aponta como o patrimônio pode ser um importante instrumento na formação da consciência histórica. A pesquisadora fez um estudo de caso a partir do patrimônio material. O objeto de estudo foi o centro histórico de Guimarães em Portugal, onde ela avaliou um grupo de 87 alunos cursando do 7° ao 10° ano. Em seu trabalho ela procurou observar os diferentes olhares que os estudantes tinham em respeito ao patrimônio local, valorizando o conhecimento prévio e residual dos educandos sobre o patrimônio histórico cultural. Utilizando o patrimônio histórico como um recurso didático para as aulas de História, além de possibilitar a reconstrução do passado histórico, seu estudo demonstrou que o patrimônio material pode ser uma ferramenta importante “para a construção de sentidos de pertenças” e memória histórica. Isso valoriza a cultura local e promove assim a consciência histórica dos educandos.
Ehlker em seu trabalho intitulado Patrimônio Imaterial e Educação Histórica, problematiza os resultados de um estudo de caso em turmas da 6ª Série e uma 7ª Série do Ensino Fundamental de uma Escola da Rede Pública Estadual no Estado do Paraná. Sua proposta foi trabalhar o patrimônio imaterial como ferramenta para a educação histórica. Os resultados de sua pesquisa indicam a importância do patrimônio imaterial para o ensino de história, uma vez que esse patrimônio remonta aos fazeres e saberes de seus antepassados. O patrimônio imaterial trabalhado na perspectiva da Educação Histórica possibilitou uma maior empatia entre os jovens e o conhecimento histórico, assim como a valorização do patrimônio cultural local. (Ehlker, 2008, p. 29)
Assim, a discussão sobre a preservação do patrimônio Cultural torna-se relevante, visto que demandas da economia e do mercado imobiliário se acelera em diferentes espaços, ocorrendo a destruição do patrimônio cultural. Araújo (2019) citando Hobsbawn (1995) escreve que se torna importante pensar o nosso tempo e entender a necessidade da construção da consciência histórica para enfrentar as disputas e interesses de diferentes segmentos sociais em relação ao patrimônio cultural.
A Educação Patrimonial e a Educação Histórica se inserem neste contexto, pois propõe um exercício de alteridade cultural, a partir da leitura de diversos pontos de vista sobre o patrimônio cultural de uma determinada comunidade. Sendo assim, perceber as diferenças entre sujeitos e tempos históricos que integram o mesmo espaço sociopolítico, onde os educadores e educandos estão inseridos como elementos formadores da sociedade, é requisito básico para o desenvolvimento da cidadania de uma possível consciência histórica. Com isso, a Educação Patrimonial e Histórica abre espaços para novos olhares, promovendo uma discussão para novas práticas pedagógicas articulando cultura local, saberes e fazeres das comunidades a partir da experiência direta com o patrimônio cultural.

Referências Bibliográficas:

ARAÚJO, Marcos Edilson Clemente. MANIERI, Dagmar. (org) in DESIDÉRIO, Mik-Eison de Souza. O conhecimento histórico na vida social dos estudantes. Curitiba: Editora CRV, 2019.
BEZERRA, Jorge Luis de Medeiros. Educação patrimonial: novas perspectivas para o ensino de história. Araguaína. UFT mestrado de Historia Prohistória. 2016. prof. Dr Mariseti Cristina Soares Lunckes (orientadora)
BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes – Ensino de História. Fundamentos e Métodos – 4° edição. São Paulo: Cortez, 2011.
FREIRE P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra; 2004.
EHLKER, Tania Gayer. Patrimônio Imaterial e Educação Histórica. Setor de Educação– DTPEN – Departamento de Teoria e Prática de Ensino. 2008. Disponível em: www.diaadiaeducacao.pr.gov.br.
PINTO, H. (2012). Interpretação de fontes patrimoniais em educação histórica. História & Ensino, 18(1), 187-218
RÜSEN, Jörn. História Viva – Teoria da História III: formas e funções do conhecimento histórico. Trad.Estevão de Rezende Martins. Brasília: Ed. da UNB, 2010.
Jörn Rüsen e o ensino de História/organizadores: Maria Auxiliadora Schmidt, Isabel Barca, Estevão de Rezende Martins – Curitiba: Ed. UFPR, 2011.

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