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Garibaldi e Anita em Torres

Dante Laytano escreveu com convicção que Garibaldi chegou a residir em Torres (A Gaivota de 1962 – Torres perante a História ou a Importância do seu Mar Bonito) até identificando a casa n. 1 como possível residencia. A tese foi acolhida, tanto que em obras posteriores (Memórias da SAPT) a foto da casa n.1 era acompanhada da didascália “Casa onde se hospedaram Garibaldi e D. Pedro I”).
Em artigo de 1996 (Garibaldi em Torres?, de 12/07/1996, em Torres tem História) R.R. Ruschel coloca o necessário ponto de interrogação e apesar de relatar a possibilidade de Garibaldi ter avistado Torres ao longo do percurso marítimo feito da foz do Rio Tramandai até Laguna (a navegação na época era mais próxima possível à costa por razões de segurança) na viagem começada em Julho 1839, se demonstra certo que, de volta para o sul após a derrota em Laguna, desta vez a pé (cfr. Ruschel) tendo perdido os navios na batalha de 15/11 do mesmo ano, Garibaldi, Anita e os restantes Farrapos tenham subido para o planalto a partir de Araranguá.
Ruschel conclui assim que nunca teria acontecido a famigerada passagem do herói italiano e de Anita na cidade, apesar de concluir a crônica com a frase:

“Se alguém possuir qualquer elemento de prova em sentido contrário, estou pronto a me conformar. Na história deve prevalecer a verdade, quanto possível”.

Numa pesquisada ao acervo do Projeto Gutemberg (digitalização de obras impressas), me surgiram as memórias de Garibaldi ( Memorie – Edizione diplomatica dall’autografo definitivo inserida na rede em 2018) , escritas por ele mesmo, onde estão narradas as aventuras nos dois lados do oceano e portanto também em terras rio grandenses.
Nas memórias encontramos aquilo que faltava ao Ruschel, ou seja a referencia explícita ao percurso da retirada de Garibaldi, Anita e suas tropas:

“Noi marciammo dunque in ritirata sino a las Torres — limite delle due provincie — ove stabilimmo il campo — Il nemico contentossi d’impadronirsi della Laguna, e non c’inseguì.”

Embora com a denominação Las Torres, essa referência da fronteira entre as duas províncias (São Pedro e Santa Catarina) parece comprovar definitivamente a passagem e a estadia (“stabilimmo il campo“) em Torres.
Mas, mesmo sem ter tropas inimigas ao alcance, a permanência foi breve, já que logo em seguida o grupo teve que juntar-se a tropas amigas no alto da serra, para bloquear uma divisão imperial que marchava no planalto, exatamente para cortar o percurso de fuga dos Farrapos:

“…avanzavasi per la Serra (monti e foreste) la divisione Acuñha, venuta dalla provincia di S. Paolo — per tagliarci la ritirata — e dirigendosi per Cima da Serra”

A junção das forças farropilhas na região serrana deu origem a uma das mais lendárias vitórias sobre exércitos imperiais, em Passo de Santa Vitória, às margens do Rio Pelotas, no dia 14 de dezembro 1839, quando graças também à presença dos lanceiros negros, 500 Farroupilhas derrotaram 2000 Imperiais, abrindo caminho para chegar até Lages no início do ano seguinte.

A confirmar-se portanto esta passagem por Torres de Garibaldi e Anita, junto da remanescente tropa, mesmo sem ainda identificar especificadamente, datas, locais e modalidades, o fato assume diversos valores simbólicos importantes do ponto de vista da história pessoal e da revolução farroupilha:

Do ponto de vista biográfico o trajeto da fuga e suas etapas, incluindo Torres portanto, representam para o próprio Garibaldi a descoberta de uma nova vocação militar:

“… Io marciava a cavallo con accanto la donna del mio cuore — degna dell’universale ammirazione — e lanciandomi in una carriera, che più ancora di quella del mare, aveva per me attrative immense.”

Ou seja pela primeira vez o comandante italiano, marinheiro por tradição de família e por criação, começa a se descobrir como combatente em terra firme, uma “carreira” que posteriormente nunca mais abandonou.

Do ponto de vista histórico, a parada em Torres e dali, a subida pela serra, representa também um dos momentos de virada no conflito que opunha a Republica Rio Grandense ao Império, que acabará sofrendo dali a alguns dias uma retumbante derrota.

Também muito interessante é que a efeméride desse evento histórico se situe mais ou menos entre final de novembro e início de dezembro 1839, ou seja exatamente 180 anos atrás em relação aos dias de hoje.

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