Apontamentos de campo, março 2014
Igrejas têm um poderoso efeito sobre as paisagens. Mobilizam remotos sentimentos e se intrometem no imaginário do observador. Estou em Curralinhos, Passo de Torres, extremo sul do litoral catarinense. É uma região pouco visitada pelos riograndenses por não ter as belezas evidentes das praias situadas mais ao norte. Mas para mim, isso não é propriamente um problema. Não busco essas belezas escancaradas. Estou à cata de outras, mais sutis, que para muitos sequer existem. Da estradinha de chão que margeia a lagoa do Sombrio, é possível ver a pequena torre, azul e branca de Curralinhos despontando acima das árvores. Sempre que passo por aqui, meu olho invariavelmente procura esse ponto da paisagem. Talvez seja por uma inclinação pessoal. Mas acho que não. Igrejas são edificações com um propósito diferente. Refletem, bem ou mal, uma intenção de transcender, de buscar algo que nos é muito anterior.

Igreja de Curralinhos, apontamento de campo, março de 2014, Jorge Herrmann
Essa igrejinha é bem velha. Pelo que me contaram, tem pra lá de setenta anos. Assim como quase todas as igrejas de pequenas localidades, parece organizar a vida do lugar. Mas ela não é a construção mais antiga por aqui. A alguns quilômetros dali, há a antiquíssima ruína de uma casa. É feita de grandes pedras encaixadas e tem grossas paredes. Pertenceu desde sempre à família Rodrigues, que por sete gerações habita parcelas de uma antiga sesmaria, na margem sul da lagoa do Sombrio. Desta margem, com algum esforço, consigo ver outra igreja, lá longe. É uma pequena manchinha branca mergulhada no horizonte: a igreja de Sombrio.

Margens da Lagoa do Sombrio, apontamentos de campo, março de 2014, Jorge Herrmann
A região, além do Morro dos Macacos, apresenta pequenas elevações de terreno arenoso. Um dia, foram dunas móveis, hoje retidas pela fixação da cobertura vegetal. Aqui e ali, dividem minha atenção com outras figueiras, que se esparramam solenemente sobre a planura. Muitas dessas figueiras são vestígios das matas que cobriam a região. Hoje são apenas coadjuvantes em uma paisagem profundamente alterada pela presença do eucalipto, uma árvore exótica original da Austrália. O eucalipto foi introduzido em nossas paisagens há muito tempo, obedecendo a uma mentalidade imediatista, segundo a qual não temos espécies nativas com o mesmo valor econômico. Conhecido em outras partes do mundo como a “árvore egoísta”, por ser um voraz consumidor de recursos hídricos, no Brasil ele é plantado em grandes áreas, destruindo ecossistemas inteiros e esgotando incontáveis cursos d’água. Quem observa o que tem acontecido com arroios e nascentes por esse interior afora, sabe bem do que estou falando.
Toda essa planície é emoldurada, até onde a vista alcança, por uma mancha de um verde profundo, a Serra Geral. Ela é resultado de um tempo remotíssimo. Foi gerada por meio de sucessivas erupções vulcânicas que modelaram grande parte das regiões sudeste e sul do Brasil. Da estrada que liga Curralinhos à BR 101, admiro a imagem que a serra faz em conjunto com as palmeiras situadas em primeiro plano. É uma paisagem encantadora e grandiosa. Sinto uma calma quase estranha aqui. Há esse silêncio, mas há também essa larga estrada, que parece preparar um futuro não mais tão silencioso. Sinto então uma antecipada e inquietante nostalgia por esse lugar.
Graduado em Desenho pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, há 19 anos vem desenvolvendo pesquisa voltada para a questão paisagística.

